Em poucas palavras...


Iniciamos hoje aqui uma nova rubrica em que semanalmente escolhemos alguém para uma pequena entrevista, e em que pedimos para nos responder a 5 perguntas.
O primeiro selecionado foi o Dr. Manuel Costa, autor do livro “A Póvoa de Varzim na Belle Époque: panorama da vida cultural e do turismo balnear”, cujo lançamento está agendado para o dia 16 de novembro, às 21h30, no Museu Municipal da Póvoa de Varzim
Caro Dr. Manuel Costa. como nasceu a ideia deste livro?
Trata-se de uma síntese da minha tese de doutoramento em estudos culturais e sociologia da cultura (2019). Ainda ninguém tinha feito um estudo tão aprofundado, no qual fosse atestado que a Póvoa de varzim tem um papel realmente cimeiro no panorama histórico-cultural da vilegiatura em Portugal, desde o século XVIII.
Apesar de ter essa base académica, o livro foi pensado para ser atrativo, para chegar a todos os tipos de leitores. Há muitas imagens sobre a Póvoa de há cem anos ou mais. Comprei muitas, mas a maior parte vem do acervo da Biblioteca, de cedências de colecionadores amigo, como é o caso do Raul Leitão. Em vários casos, tive que comprar direitos de reprodução a museus e a arquivos nacionais e estrageiros.
Por tudo isto, acho que o livro vai suscitar uma grande procura. Acho mesmo que vai esgotar depressa, dado que há muito quem se interesse por este tipo de obras de grande formato e com a qualidade gráfica e editorial que desta edição municipal.
Foi fácil a recolha do material para o seu conteúdo?
Sim e não, pois eu sabia onde procurar e o que devia ser estudado. Mas ainda não havia nada que fosse comparável, ou que servisse de base, pois nunca se tinha sido feito uma tese de doutoramento exclusivamente sobre a Póvoa de Varzim. Mas a investigação científica implica isso mesmo: arriscar e inovar nas perspetivas traçadas e comprovar que são válidas. Foi isso que aprendi desde muito cedo com o Professor João Francisco Marques.
No plano académico, não foi fácil obter a validação do meu projeto de investigação, apesar do apoio do meu orientador, dado que este tipo de estudos monográficos é muitas vezes confundido com trabalhos mais memorialistas ou de história local. A questão é que a compreensão diacrónica das cidades balneares só ganha com estudos feitos em profundidade e que explorem documentação que só existe a nível local. Além disso, era preciso estudar um período longo, de pelo menos meio século, e era preciso focar-me num período crucial da edificação da Póvoa balnear. Ora, isso implicou a leitura de toda a imprensa poveira que foi publicada entre 1870 e o fim da I República. Ou seja, tive que ler, de fio a pavio, muitos milhares de páginas de jornais poveiros, assim como muitos documentos contidos em arquivos públicos, em espólios privados e em repositórios de imagens. Foram dez anos de pesquisas e de escrita, até chegar à produção de uma tese que fosse validada cientificamente.
A questão da recolha da informação é a principal razão pela qua não há mais teses deste tipo em Portugal, pois é preciso estar disponível para fazer pesquisas e leituras durante anos. Seria mais fácil se os jornais antigos estivessem online. No meu caso, isso foi possível porque fui teimoso e, porque sendo o diretor da Biblioteca, podia trabalhar pela noite dentro, ou durante os fins de semana. Além disso, eu conhecia muito bem a imprensa local. A parte mais difícil foi mesmo não desistir de procurar, de analisar, de comparar, de comprovar. Mas valeu a pena. A Póvoa tem finalmente um estudo académico aprofundado sobre este assunto e a edição desta obra vai permitir que esse conhecimento fique ao alcance de todos, graças ao apoio da Câmara Municipal.
Acha que é uma obra que vai contribuir para a recolha e preservação da história da Póvoa?
Espero que sim! O livro mostra quão profunda e radical foi a mudança da Póvoa marítima para a Póvoa balnear e quanto da paisagem urbana desapareceu, dentro do que hoje se considera ter valor histórico-patrimonial. A imagem turística da Póvoa de Varzim beneficiou muito com a invenção da fotografia e do bilhete-postal ilustrado, e com o surgimento da imprensa poveira. Graças aos esforços de preservação dos irmãos Barbosa e do Manuel Lopes, muitos documentos foram salvos e estão hoje ao alcance de toda a gente. Mesmo assim, ainda há muita documentação que vai parar aos caixotes do lixo.
Nesse sentido, acho que este livro pode ajudar a sensibilizar as pessoas para a importância de guardarem os seus espólios pessoais, ou de os doar a quem saiba cuidar deles, como o Arquivo, a Biblioteca ou o Museu. Não se pode esquecer o trabalho notável que tem sido feito pela Associação Póvoa Ontem e Hoje, no que respeita à recolha e à valorização e partilha do nosso património material e imaterial.
Além de ser baseado na sua tese, o que o motivou a escrever este livro?
Não sendo eu académico de carreira, não fiz este livro para cumprir objetivos a que os académicos estão obrigados. Foi antes por imperativo cívico, algo que é comum nos meios da defesa do património.
Posso dizer que houve alguns momentos marcantes, no que diz respeito à consciencialização para estas questões. Corriam os anos oitenta, quando o estudo e a divulgação do património cultural ganhavam muita força. Nessa altura, dava os primeiros passos nos serviços culturais municipais, com o Manuel Lopes, na Biblioteca e depois no Museu, onde fui guia de exposições. Também aprendi muito com pessoas como o Padre Amorim, o Professor João Francisco Marques, o Dr Jorge Barbosa, o José Azevedo, o senhor Eiras, o Armando Marques e tantos outros cultores do nosso património e da nossa história.
Esses tempos também foram marcados pela militância cultural no Octopus, de que cheguei a ser membro do corpo diretivo. A democratização do acesso à cultura andava antão de mãos dadas com as políticas juvenis e com os incentivos ao associativismo cultural juvenil.
Naturalmente, foi ao longo da minha carreira na Biblioteca que cimentei a minha ligação à cultura, à edição e ao património cultural, incluindo à Lancha Poveira, um projeto aliciante que coordenei durante 12 anos. Mais tarde, vieram outras motivações, fruto das funções que desempenhei em vários ministérios e em Bruxelas. Nesses anos, alarguei os meus horizontes intelectuais, académicos e profissionais. Também foi importante o facto de nunca ter parado de estudar e de ter sido convidado para ser investigador e docente universitário, pois mantive-me a par de questões mais teóricas e metodológicas sobre estas temáticas. Obviamente, o doutoramento foi o culminar desse percurso de aprendizagens e de experimentação dos saberes.
Fale-nos um pouco de si
Nasci em Beiriz, em 1965, num tempo em que a pobreza, a falta de oportunidades e o medo da ida para a guerra colonial empurravam as pessoas para a emigração. Cresci perto de Paris, numa vila onde não faltavam bibliotecas infantis e onde o ensino incluía a formação cultural dos alunos, desde a mais tenra idade. Além disso, os professores incutiam valores que nasceram com o maio de 68. É daí que vem a minha paixão pelos livros, pela cultura e pela escola, sobretudo, assim como pelos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
Regressados à Póvoa, vivemos na rua 31 de Janeiro e andei na Escola da Lapa, bem no coração do Bairro Sul, e isso foi marcante. Quem vive tão perto do oceano e tão imerso na vida das gentes da pescaria, nunca mais se separa do mar!
Passei cinco anos da minha adolescência no Porto, uma cidade vibrante e muito mais cosmopolita do que a Póvoa de então. Anos inesquecíveis!
O regresso à Póvoa aconteceu no início dos anos oitenta e vivi então os anos fantásticos do Liceu e da preparação para a entrada na universidade, do associativismo escolar, da entrada para os escuteiros da Matriz, da adesão ao Octopus e do envolvimento na dinamização de entidades como a Federação das Associações Juvenis do Distrito do Porto, ao lado de outros jovens universitários muito dinâmicos, como o Joel Cleto ou o Manuel Pizarro.
Nos verões, sempre trabalhei nos cafés da praia e adorava mergulhar no bulício da vida balnear poveira. Veio a tropa, um emprego promissor no setor têxtil e algumas experiências como empregado do comércio local. O gosto pelo estudo prevaleceu sempre. Esses empregos serviram sobretudo para comprar livros e para correr a Europa de mochila às costas.
Tudo isso mudou quando fui admitido na Biblioteca. Fiz o meu curso de técnico de BAD, estagiei em bibliotecas espanholas, fiz cursos de línguas e de culturas. Enfim, fiz tudo e mais alguma coisa para satisfazer a curiosidade sem limites que enchia a minha cabeça.
Enfim, apesar de tantas experiências e de tantas viagens, a Póvoa e a cultura estiveram sempre no centro da minha vida, até hoje.
Agradecemos ao Dr. Manuel Costa a disponibilidade para esta entrevista.
Xavier Flores - Póvoa de Varzim - Informação
